O plano anunciado pelo governo de Donald Trump para utilizar energia da usina de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai, para abastecer empresas de inteligência artificial pode reduzir a quantidade de eletricidade destinada ao mercado brasileiro nos próximos anos. O alerta é de especialistas em energia, após o anúncio de uma parceria entre uma empresa americana e uma empresa paraguaia.
O impacto do acordo internacional na usina
Pelo Tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito, cada um, à metade da energia produzida pela usina. O acordo prevê que a parcela não utilizada por um dos países seja disponibilizada para ser comprada pelo outro. Historicamente, o Paraguai consumia apenas uma pequena parte da energia a que tinha direito e destinava o excedente ao Brasil. Atualmente, o país utiliza cerca de 74% da sua metade, enquanto os 26% restantes são destinados ao mercado brasileiro.
O projeto utilizará energia produzida por Itaipu para abastecer uma estrutura de processamento de dados instalada no Paraguai. Segundo o governo americano, a instalação atenderá clientes dos Estados Unidos e da América Latina. O anúncio não detalhou a quantidade de energia que será contratada. O Brasil não participou das negociações anunciadas pelo governo americano, e a hidrelétrica informou que a utilização da energia é uma decisão nacional de cada país.
Projeções dos especialistas sobre a oferta
Para Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor da Faculdade Politécnica da Universidade Nacional de Assunção, no Paraguai, a redução do excedente destinado pelo lado paraguaio ao Brasil já está em andamento e pode se acelerar com a chegada de novos consumidores.
“O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante”, afirma Oxilia.
O especialista explica que o crescimento da demanda paraguaia se intensificou a partir de 2021 e 2022, principalmente pela instalação de empresas que utilizam grandes quantidades de eletricidade, como as dedicadas à mineração de criptomoedas.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Tomaz Espósito, também considera que os empreendimentos podem reduzir a disponibilidade de energia para o Brasil e tornar mais complexas as negociações entre os países.
“Com um novo consumidor, as negociações do Anexo C se tornarão mais complexas, pois o Paraguai poderá ter outros consumidores, como essas empresas. No curto prazo, isso significa uma possibilidade de redução da oferta de energia ao mercado brasileiro”, explica.
Segurança energética do Brasil
Apesar da possibilidade de redução, os especialistas não apontam risco imediato de desabastecimento no Brasil. Oxilia avalia que o país possui um sistema elétrico diversificado, com outras fontes de geração capazes de reduzir os impactos.
“O Brasil vai sentir essa redução de energia disponível, porém tem um sistema tão grande, com tantas opções hoje em dia, que esse impacto vai ser mínimo”, afirma.
Espósito, por outro lado, chama atenção para a importância da energia de Itaipu no abastecimento do Centro-Sul brasileiro. O Anexo C do Tratado de Itaipu estabelece as regras financeiras e de comercialização da energia produzida pela hidrelétrica, compartilhada entre Brasil e Paraguai. O documento define, entre outros pontos, como são calculados os custos da eletricidade e a compensação paga pela energia que um país não utiliza e disponibiliza ao outro.
Por Redação Acontece
Embaixada dos EUA no Paraguai / Reuters
