Educação no canteiro de obras ou no shopping: empresas do PR oferecem aulas durante o expediente para trabalhadores concluírem estudos

A educação durante o expediente de trabalho tem transformado a rotina de milhares de trabalhadores no Paraná, levando salas de aula diretamente para canteiros de obras e shoppings centers do estado.

Aprendizado na construção civil

Três vezes por semana, Admilson Figueiredo de Andrade, de 46 anos, faz uma pausa no trabalho e troca o material que usa no dia a dia da construção civil pelo lápis e borracha.

Funcionário da construtora MRV em Curitiba, ele é uma das mais de 7 mil pessoas impactadas por um programa da empresa que, desde 2011, implantou 326 escolas em canteiros de obras para que funcionários concluam os estudos.

“Eu interrompi meus estudos com 16 anos. Eu parei para trabalhar. Hoje eu me arrependo muito por isso. Tentei voltar outras vezes, mas não consegui conciliar trabalho e estudo. A mente não ajudava. A hora que surgiu a oportunidade de estudar com a MRV, eu nem pensei, me inscrevi na hora”, conta Admilson.

Nos dias de aula, ele encontra, no horário do expediente, a professora Silvana Bárbara. Junto com a turma, eles desenvolvem atividades que contemplam da alfabetização à preparação para o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos), e que fortalecem competências de leitura, escrita e raciocínio lógico.

“A gente trabalha ou na sala de treinamento ou no próprio refeitório. Nós montamos a escola ali: colocamos a lousa, colocamos o projetor, o amplificador de som. Trabalhamos dentro do canteiro de obras mesmo”, descreve a professora, que faz esse trabalho há dois anos.

Admilson é uma das mais de 73 milhões de pessoas com 18 anos ou mais que não concluíram a educação básica, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Inclusão nos shoppings do Paraná

Uma iniciativa semelhante é desenvolvida nos shoppings da empresa Multiplan. Na capital paranaense, Kamila de las Mercedes Sanchez llerena, funcionária terceirizada no Park Shopping Barigüi, participa das aulas diariamente, também dentro do horário do expediente.

Natural de Cuba, ela tem 22 anos, vive no Brasil há pouco mais de dois anos e buscou as aulas para aprender o português e revalidar os diplomas das formações no país de origem.

“Lá eu estudava nutrição na universidade. Tive que deixar os estudos para vir para cá. Foi muito difícil. Aqui você tem que começar uma vida totalmente diferente. É complicado e não são todas as pessoas que conseguem fazer isso”, afirma Kamila, que aponta a língua como a maior dificuldade.

Impacto na carreira e produtividade

Embora o foco esteja no desenvolvimento de competências, ampliar o acesso à educação também está trazendo reflexos para a carreira e a vida pessoal dos trabalhadores.

Um levantamento interno feito pela MRV mostra que 83% dos colaboradores entrevistados afirmaram desejar permanecer mais tempo na empresa devido à iniciativa, enquanto 89% perceberam aumento na própria produtividade.

“Eu percebo, além do aprendizado, uma transformação na forma deles pensarem e se comportarem. Alguns conseguem essa certificação [Encceja], alguns conseguiram ir adiante, mudar as suas vidas fazendo curso técnico, alguns pensam em fazer uma faculdade… Isso que é o maior impacto que eu vejo: a realização de um sonho que, para eles, era até então impossível e está acontecendo”, afirma a professora Silvana Bárbara.

No Park Shopping Barigüi, a diferença fica evidente também no dia a dia do trabalho. Com um número grande de estrangeiros, isso se reflete em especial no aprimoramento da comunicação, como detalha Marcela Bonandin, gerente de operações do shopping.

“Acho que eles se sentem abraçados. Principalmente pela questão cultural. Vindo de países diferentes, chegar a um país que não fala a língua deles… Tem um algo a mais na entrega deles do dia a dia que faz toda a diferença para a gente”, afirma a gerente, que destaca ainda que o projeto foi criado com outro foco, mas passou por adaptações para incorporar os colaboradores estrangeiros.

Desafios da EJA no Paraná

Aos adultos que não têm a mesma oportunidade que Admilson e Kamila de trabalhar em uma empresa que oferece aulas para a conclusão da educação básica, a rede pública oferece a Educação de Jovens e Adultos (EJA) – instituída em 1996.

A procura da EJA, porém, vem caindo nos últimos anos. No Paraná, entre 2007 e 2025, o número de matrículas na EJA caiu 64,5%. O movimento de queda é nacional, mas na rede paranaense a variação é maior. Em todo o Brasil, o número de matrículas caiu 55,3%.

Os motivos para a queda, segundo Luana Smeets, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, são multifatoriais – especialmente considerando que o público-alvo dos estudantes da EJA são pessoas adultas, que têm demandas do mundo do trabalho, outras demandas que são diferentes daquelas na idade escolar regular, o que exige uma natureza diferente de proposta para o ensino.

“A queda nas matrículas não significa que a gente está com o problema resolvido. Hoje a gente tem um contingente muito grande de adultos que não se escolarizaram. A queda pode ser falta de informação, pode ser necessidade de acesso à renda, o que limita o tempo dessas pessoas de poder dedicar algumas horas para estudar, pode ter alguma relação com a falta de interesse, por exemplo: aquele conteúdo não está conectado com o que eu preciso para minha vida adulta, no meu trabalho, na minha casa, nas minhas relações…”, pontua Smeets.

Para especialistas, a integração da EJA com a Educação Profissional e Tecnológica surge como uma alternativa fundamental para atrair novos alunos e garantir o cumprimento do direito constitucional à educação no estado.

Por Redação Acontece

Foto: Divulgação / MRV

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