{"id":7639,"date":"2022-03-28T16:37:49","date_gmt":"2022-03-28T19:37:49","guid":{"rendered":"https:\/\/acontecenafronteira.com.br\/?p=7639"},"modified":"2022-03-28T16:37:51","modified_gmt":"2022-03-28T19:37:51","slug":"pesquisa-da-unila-resgata-audios-ineditos-de-stella-do-patrocinio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acontecenafronteira.com.br\/index.php\/2022\/03\/28\/pesquisa-da-unila-resgata-audios-ineditos-de-stella-do-patrocinio\/","title":{"rendered":"<em><strong>Pesquisa da UNILA resgata \u00e1udios in\u00e9ditos de Stella do Patroc\u00ednio<\/strong><\/em>"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><br><\/strong>Com a divulga\u00e7\u00e3o do Falat\u00f3rio, objetivo \u00e9 reconstruir a hist\u00f3ria da poeta carioca e compreender o que ela representa para a cultura brasileira.<br><strong><br><\/strong>Pela primeira vez, a \u00edntegra dos \u00e1udios de Stella do Patroc\u00ednio foi disponibilizada para acesso ao p\u00fablico. O Falat\u00f3rio, como ficaram conhecidas as falas de Stella, est\u00e1 dispon\u00edvel para download no Reposit\u00f3rio Institucional da UNILA.<br><br>Lembrada por sua poesia, a obra escrita de Stella do Patroc\u00ednio \u00e9 o resultado de transcri\u00e7\u00f5es de grava\u00e7\u00f5es realizadas enquanto ela era interna em uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental do Rio de Janeiro, onde passou mais de 30 anos de sua vida. O \u00fanico livro de sua autoria \u2013 Reino dos bichos e dos animais \u00e9 o meu nome \u2013 foi publicado em 2001, quase 10 anos ap\u00f3s sua morte. Agora, com a libera\u00e7\u00e3o dos \u00e1udios, o objetivo \u00e9 resgatar a oralidade na sua obra e reconstruir a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A disponibiliza\u00e7\u00e3o dos \u00e1udios de forma aberta e gratuita \u00e9 um dos resultados da pesquisa de Sara Martins Ramos, mestra em Literatura Comparada pela UNILA. Em sua disserta\u00e7\u00e3o, Sara critica a constru\u00e7\u00e3o da figura de Stella ao longo dos anos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEsta pesquisa surgiu a partir de um inc\u00f4modo. Fui me incomodando com v\u00e1rias coisas que lia sobre Stella, principalmente nos c\u00edrculos acad\u00eamicos e liter\u00e1rios. Eu senti que precisava fazer um trabalho que analisasse por que a Stella era apresentada dessa maneira e a que interesses essa constru\u00e7\u00e3o atendia\u201d, explica.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os \u00e1udios foram repassados pela artista pl\u00e1stica Carla Guagliardi, respons\u00e1vel pelas grava\u00e7\u00f5es nos anos 80. A disserta\u00e7\u00e3o foi orientada pelo professor Andrea Ciacchi. Os \u00e1udios e o trabalho de pesquisa podem ser acessados por meio do link&nbsp;<a href=\"https:\/\/bit.ly\/Falatorio\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/bit.ly\/Falatorio<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A mulher que vemos, mas n\u00e3o ouvimos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para entender quem foi Stella do Patroc\u00ednio, \u00e9 necess\u00e1rio juntar as pe\u00e7as e fazer um paralelo entre a hist\u00f3ria oficial, registrada pelas institui\u00e7\u00f5es, e a hist\u00f3ria que a pr\u00f3pria Stella conta, descrita em seu Falat\u00f3rio. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c\u00c9 muito dif\u00edcil contar a vida de Stella, porque a maior parte das informa\u00e7\u00f5es veio da institui\u00e7\u00e3o manicomial, a mesma institui\u00e7\u00e3o que cerceou sua vida. Ent\u00e3o a gente questiona at\u00e9 que ponto essas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o fidedignas e foram registradas de boa-f\u00e9\u201d, indaga Sara Ramos.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Carioca nascida em 1941, Stella era uma mulher negra que trabalhava como dom\u00e9stica e estudava. \u201cAlgumas pessoas colocam a Stella como uma mulher analfabeta, mas sabemos, pelas pesquisas de campo mais recentes, que ela gostava muito de estudar e que ela trabalhava como dom\u00e9stica enquanto estudava, para ver se conseguia um trabalho melhor\u201d, relata Sara, que citou os estudos de Anna Carolina Zacharias (Doutorado em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria\/ Unicamp), que investigou a hist\u00f3ria de Stella junto com os parentes que ainda est\u00e3o vivos. Aos 21 anos, em 1962, Stella do Patroc\u00ednio foi presa pela pol\u00edcia enquanto caminhava com um amigo em dire\u00e7\u00e3o a um ponto de \u00f4nibus. <\/p>\n\n\n\n<p>Ela foi encarcerada em um contexto de forte repress\u00e3o ao que se chamava de \u201cvadiagem\u201d ou, como coloca Sara Ramos em sua disserta\u00e7\u00e3o, &#8220;um pretexto para abdu\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de corpos pretos circulando no Rio de Janeiro\u201d. Ap\u00f3s a pris\u00e3o, Stella foi encaminhada, pelas autoridades policiais, para uma institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental. Diagnosticada com esquizofrenia, viveu at\u00e9 a sua morte, em 1992, na Col\u00f4nia Juliano de Moreira.<\/p>\n\n\n\n<p>De 1986 a 1988, os internos da Col\u00f4nia participaram de oficinas de arte organizadas pela artista pl\u00e1stica Carla Guagliardi. Foram essas grava\u00e7\u00f5es que lan\u00e7aram luz sobre a poesia e filosofia das falas de Stella e permitiram conhecer sua vida para al\u00e9m do que est\u00e1 registrado nos \u00f3rg\u00e3os oficiais. A partir dos \u00e1udios \u2013 que at\u00e9 mar\u00e7o de 2022 sempre foram divulgados em trechos, nunca na \u00edntegra \u2013 foram organizadas exposi\u00e7\u00f5es, pe\u00e7as teatrais, interven\u00e7\u00f5es culturais, al\u00e9m do pr\u00f3prio livro atribu\u00eddo a Stella.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado em 2001, o livro Reino dos bichos e dos animais \u00e9 o meu nome permitiu que a poeta se tornasse conhecida nacionalmente mas, ainda assim, mostrou uma Stella muito diferente da que pode ser conhecida pelos \u00e1udios, ignorando, por exemplo, as viol\u00eancias que ela sofreu ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEssa Stella apresentada no livro, al\u00e9m de ser uma Stella louca, \u00e9 uma Stella desracializada e descorporificada. Mas [nos \u00e1udios] eu n\u00e3o escuto uma Stella intrinsecamente louca. Eu escuto uma mulher que foi adoecida por uma institui\u00e7\u00e3o, que foi aprisionada porque era um corpo negro que estava andando na rua com seu amigo Luiz e, a partir dali, foi encarcerada pelo resto da vida\u201d, defende Sara. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora, os problemas no texto v\u00e3o al\u00e9m das perdas comuns em qualquer transcri\u00e7\u00e3o. Muitas falas foram desmembradas, exclu\u00eddas e, inclusive, foram acrescentados textos que n\u00e3o s\u00e3o originais de Stella do Patroc\u00ednio. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEssa constru\u00e7\u00e3o da imagem lembra muito Carolina Maria de Jesus e outros textos de mulheres negras que s\u00e3o manipulados por uma narrativa. Precisamos questionar que narrativa \u00e9 essa. A quem essa narrativa atende. \u00c9 todo um processo de mutila\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito comum de toda a l\u00f3gica colonial da nossa sociedade\u201d, questiona.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sara Ramos, que \u00e9 graduada em Produ\u00e7\u00e3o Editorial (UFRJ), sustenta que as falas de Stella do Patroc\u00ednio foram desmembradas, entre outros motivos, para a produ\u00e7\u00e3o de poemas que atendessem \u00e0 l\u00f3gica dos c\u00edrculos liter\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cN\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o ache que a Stella n\u00e3o tem poesia. Ela tem poesia, tem filosofia, tem uma intelectualidade imensa. Ela construiu uma etimologia pr\u00f3pria para falar n\u00e3o s\u00f3 dela, mas que fala da gente, das institui\u00e7\u00f5es que endossamos, do colonialismo, do que \u00e9 ser uma mulher negra. E n\u00e3o \u00e9 isso que lemos nas p\u00e1ginas do livro. Agora, com os \u00e1udios, temos uma nova oportunidade para respeitar suas palavras\u201d, diz.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><br><strong>Acerto de contas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o do Falat\u00f3rio na \u00edntegra cumpre um papel de reverter os processos de apagamento e de apropria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Stella do Patroc\u00ednio, al\u00e9m de ser uma nova fonte para compreender o que ela representa para a cultura brasileira. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO trabalho e o esfor\u00e7o intelectual e afetivo dos povos pretos n\u00e3o podem permanecer apenas na m\u00e3o de especialistas e acad\u00eamicos majoritariamente brancos. Minha expectativa \u00e9 que as grava\u00e7\u00f5es abram caminhos para uma nova profus\u00e3o de textos e trabalhos que agora poder\u00e3o circular trazendo uma nova onda de acerto de contas\u201d, enfatiza a pesquisadora.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sara tamb\u00e9m espera que Stella seja cada vez mais reivindicada como uma figura importante para a cultura negra e a cultura brasileira de forma geral. \u201cO que importa \u00e9 que ela esteja circulando, em ensaios, em pe\u00e7as teatrais, em exposi\u00e7\u00f5es, nas rodas de samba, nas conversas de bar. Que ela continue circulando, porque ela sempre gostou de circular pelas ruas da cidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"310\" height=\"476\" src=\"https:\/\/acontecenafronteira.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Foto-01-Stella-do-Patrocinio-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7644\" srcset=\"https:\/\/acontecenafronteira.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Foto-01-Stella-do-Patrocinio-2.jpeg?v=1648496178 310w, https:\/\/acontecenafronteira.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Foto-01-Stella-do-Patrocinio-2-195x300.jpeg?v=1648496178 195w\" sizes=\"auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a divulga\u00e7\u00e3o do Falat\u00f3rio, objetivo \u00e9 reconstruir a hist\u00f3ria da poeta carioca e compreender o que ela representa para a cultura brasileira.Pela primeira vez, a \u00edntegra dos \u00e1udios de Stella do Patroc\u00ednio foi disponibilizada para acesso ao p\u00fablico. 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